
Eu poderia enumerar diversas razões pelas quais William S. Burroughs merece ser eleito um maldito da Crânio. E mais razões ainda para que seja eleito um mentor do universo que alimenta essa bando de malditos que formam a Crânio. Enfim, ele não é só um escritor genial, é um representante de uma geração fodida de escritores, que nasceu e viveu beat até o último segundo. Ou, se vocês preferirem, eu digo que foi porque ele assassinou a segunda esposa durante uma equivocada e bêbada tentativa de acertar a maçã que estava sobre a cabeça dela. O fim vocês já sabem. E foi esse fato traumatizante que o tornou escritor. Vale ou não vale à título de maldição?

O motivo que eu vou usar, entretanto, é algo pouco divulgado na trajetória produtiva de Burroughs. Para quem não sabe, o escritor beat foi um dos primeiros a criar, em parceria com o artista Malcolm McNeil, uma graphic novel, ou, o termo em português menos usado, um romance gráfico. A publicação da obra-prima quase perdida foi anunciada em 2010 pela Fantagraphics Books e se chama “Ah Pook is Here”. Se vai ser realmente publicada, não é possível saber, já que estava prevista para o verão de 2011, mas podemos nos deliciar com um pouco sobre a obra.
“Ah Pook is Here” apareceu pela primeira vez em 1970 com o título “The Unspeakable Mr. Hartas”, uma tirinha mensal escrita por Burroughs e ilustrada por McNeil na revista Cyclops. Quando a publicação terminou, eles decidiram desenvolver o projeto de forma completa, um romance com palavra e imagem, já que o termo “graphic novel” ainda não havia sido cunhado. Na época, Burroughs estava com 56 anos e McNeil com 23.
O livro foi concebido como uma única tela na qual texto e imagens eram combinados de qualquer forma que parecesse apropriada à narrativa. Também foi feito como 120 páginas contínuas que se dobravam. Uma publicação assim, naquela época, não possuía precedentes e não havia editores dispostos a dar uma chance a algo do gênero. Os autores, então, abandonaram o projeto depois de sete anos de colaboração.
A temática é uma reflexão sobre o tempo nas concepções dos Maias e da mentalidade ocidental da época. Para Burroughs, as duas visões resultavam em sistemas de controle com os quais a elite perpetuava seu domínio às custas do povo. Eles fizeram o tempo para eles mesmos e por meio do aperfeiçoamento dos meios de controle prolongaram o processo de indefinitivamente.
A história mostra John Stanley Hart, o “Ugly American”, o próprio “Instrumento de controle”, um magnata bilionário da imprensa obcecado por descobrir maneiras de alcançar a imortalidade. Com base numa fórmula encontrada em livros maias, ele tenta criar uma Máquina de Controle da Mídia usando imagens de medo e morte. Melhorando esse controle, entretanto, ele desvaloriza o tempo e invoca um inimigo implacável: Ah Pook, o Deus Maia da Morte. Jovens heróis mutantes, então, usando a mesma fórmula, viajam no tempo trazendo pragas biológicas de um passado remoto para destruir Hart e sua realidade judeu/cristã.
“Ah Pook is Here”, portanto, é uma graphic novel sci-fi feita na década de 1970. Um experimento não só nos termos da forma como a ideia foi expressa, mas nos possíveis efeitos que a forma produziu posteriormente. Além da inovação de casar palavra e ilustração, a produção seguiu a técnica do cut-up, popularizada por Burroughs e Brion Gysin, uma antecipação das técnicas que fundaram o pós-moderno na produção literária e, posteriormente, em outras artes – o sampling e o mashup -. Um dos pontos principais da obra é confirmar algo que Burroughs buscou em toda sua produção: trabalhar a natureza das palavras e das imagens, particularmente no que diz respeito à habilidade desses elementos de transcender no tempo.


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Data do Post: 13/01/12
Categoria(s): Malditos, Mitologia
Tags: Ah Pook is Here, beat generation, Deus da Morte, graphic novel, Ilustração, literatura, Maias, Malcolm McNeil, The Unspeakable Mr. Hartas, William Burroughs
Publicado por:
23/01/2012 at 10:00 AM
[...] dias da graphic novel feita pelo escritor beat William Burroughs e pelo artista Malcolm McNeil aqui. Hoje é a vez de publicar a animação feita por Philip Hunt com base em textos de Burroughs [...]