Artigos com o marcador José Mojica Marins
“Cada puta unha desse tamanho”
10/07/10
Você sabe quem é Josefel Zanatas? Aposto que o nome não é familiar, mas a figura está bem presente no seu imaginário – da mesma forma que no imaginário de todo brasileiro médio (seja lá o que isso quer dizer) –.
Ele surgiu no cinema e povoou muitos pesadelos por aí (não, não é o Freddy Krueger). Mesmo que você não tenha assistido a nenhum dos filmes dele, você deve ter visto o Cine Trash ou o Cine Sinistro, ambos programas de nome autoexplicativo que passaram na Bandeirantes durante a década de 1990.
Se isso não refrescou a memória, tente esta descrição:
Frame do filme “Encarnação do Demônio”, sobre o qual falaremos mais tarde
Chame-o Zé do Caixão, mas o nome verdadeiro – do personagem – é Josefel Janatas, escolhido e explicado pelo próprio criador José Mojica Marins: “fel” por ser amargo e Zanatas “porque de trás para frente dava Satanás”. Um personagem mítico do cinema brasileiro que praticamente teve a identidade assumida por Mojica diante do sucesso que alcançou desde a criação, no dia 11 de setembro de 1963.
A primeira aparição – termo que não poderia ser mais propício para a figura – foi no filme “À Meia-Noite Levarei Sua Alma” (1963), primeiro da trilogia que comentaremos num próximo post. Depois disso, fez outros tantos filmes e foi descoberto pela televisão, fez vários programas e foi engolido pela deterioração do gosto popular:
“(…) a televisão é um veiculo dinâmico, diria até que autofágico, a sede de preciosos pontos nos níveis de audiência obriga as emissoras a sempre estarem lutando contra um vórtice que a tudo carrega. A escravidão imposta pela audiência atordoa e desnorteia, e muitos são aqueles que sofrem os rigores desta esfinge (decifra-me ou te devoro). O meu personagem está ciente disto, e sabe que nada pode fazer contra este ciclope, mas ele também sabe que o fim do mundo está próximo e, mais do que nunca, espera que contatos imediatos sejam estabelecidos, para poder viajar para outro planeta, pois com certeza o lugar dele não é aqui neste ‘mundo’”.
Se ele é ou não deste mundo, não se sabe, mas certamente ele não atende a requisitos normais. Um agente funerário que assumiu a figura do mistério e do mau agouro, com jeito de quem não tem medo daquilo com que lida. Mas não pense você que ele é demoníaco ou algo que o valha; “Zé do Caixão é um homem sem crenças, não acredita em Deus nem no Diabo, só acredita nele mesmo, acha que é o único que pode fazer justiça”.
Na verdade, é possível até sentir pena de Zé do Caixão. Apesar de ter nascido em berço de ouro – conta Mojica –, era uma criança muito sozinha; os colegas o discriminavam pela profissão dos pais, donos de uma rede de agências funerárias. Na escola, só fez uma amizade; Sara, menina pela qual se apaixonou e com a qual, mais tarde, decidiu se casar. Uma tragédia, entretanto, impediu o casamento. Os pais de Sara morreram e, em seguida, Josefel é mandado para a guerra. Eles decidem casar quando ele voltasse.
Sara continuou cuidando da funerária e mandava cartas para o amado. Um desencontro, porém, fez com que as cartas parassem de ser recebidas por ele. Sem respostas, Sara pensou que Josefel havia morrido e, como a vida estava difícil, casou-se com o prefeito. Em 18 de julho de 1945 (a história toda criada por Mojica é rica em detalhes), Josefel volta e encontra Sara e o prefeito juntos. Antes de qualquer explicação, ele saca o revólver e mata os dois.
Ele não é condenado pelo crime, que foi justificado como “trauma de guerra”, mas algo muda. “Josefel, que até então era um homem doce e bondoso, se torna uma pessoa amarga e sem sentimentos. Passa então a aterrorizar os moradores da cidade e logo recebe o apelido de Zé do Caixão”.
O objetivo dele agora é encontrar uma mulher que compartilhe seus pensamentos e com a qual possa ter um filho perfeito, única maneira de ser imortal e perpetuar o ser superior que ele acredita ser. Para encontrar a mulher superior, “ele passa por cima de todos aqueles que atrapalharem seus planos, não tem dó nem piedade e mata se for preciso”.
Veja bem, Zé do Caixão, na verdade, só tem um coração desiludido e quer ser papai!
Se a coisa ficou muito mais bonita vendo dessa forma, é porque você não assistiu aos filmes nos quais ele procura a mulher superior, aquela que lhe dará o filho perfeito. A saga é composta por uma trilogia: “À meia-noite levarei sua alma” (1964), “Esta noite encarnarei no teu cadáver” (1967) e “Encarnação do Demônio” (2008). Mas isso é assunto para um próximo post, muito mais macabro, tenha certeza.





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