Na segunda parte da entrevista com Fabiano Vianna, editor da Revista Lama, um pouco sobre cultura, internet, fotonovela e as histórias do Vampiro e do Frankenstein de Curitiba, Dalton Trevisan e Valêncio Xavier, os escritores curitibanos que foram colaboradores na Lama #2. A primeira parte da entrevista pode ser lida aqui.
A segunda edição impressa da revista, inclusive, está disponível e custa R$ 12. Se você não está em Curitiba, pode comprar pela internet. O envio é por carta registrada e custa R$ 17 (R$ 12 + R$ 5). Interessados devem entrar em contato pelo email revistalama@gmail.com.

Algumas das ilustrações da segunda rodada de contos que está rolando agora no blog da Lama.
O que mantém o ânimo de trabalhar com cultura? Você vê um cenário mais promissor com a internet?
Fabiano Vianna: Na verdade ânimo não é bem a palavra, acho. Seria mais obsessão ou condenação mesmo. Já pensei diversas vezes em parar de escrever e fazer fotonovelas, pois estas coisas só me desgastam (e gastam). Mas, sem controlar, me vejo acometido por ideias, povoado por contos e criaturas que precisam sair.
O que sei fazer de melhor são coisas relativas à cultura, ilustração, design, literatura. Não tem muito jeito de sair disso. E, como disse, sou péssimo com mundo racional, ou seja, números e engendramentos objetivos.
Caminho pelas tortuosas trilhas da subjetividade.
Vejo um caminho promissor com a internet, sim. A possibilidade de continuar morando em Curitiba, mas dialogando com o mundo.
Porém, ao mesmo tempo, carrego dentro de mim, e isso é inerente à condição hipermoderna, um caminhão de referências e vícios do passado. Livros, lambretas, vinis… Sou povoado internamente pelo cheiro do papel das revistarias que frequentei na infância e juventude. Minhas mãos anseiam ainda pelo prazer tátil dos livros, os olhos buscam reconhecer a textura da tinta na tela na parede.
Numa busca rápida pela internet dá pra notar que você é referência também na produção de fotonovelas. O que o atrai no formato?
Fabiano Vianna: Gosto de contar uma história com auxílio de imagens. É o legado que Valêncio Xavier me deixou. Brincar de fazer cinema em forma “estática”. A fotonovela permite muitas possibilidades, como trabalhar com pessoas que não são atores também. Claro que os atores se saem melhor. A coisa rende muito mais quando trabalho com atores, mas o que quis dizer é que não é necessariamente obrigatório.
No começo fazíamos tudo em estúdio, sem cenário. Eu acrescentava as paisagens depois, no Photoshop. A partir da terceira, A Infiel, que está completa lá no site crepusculo.com.br, comecei a experimentar produções externas e passaram a trabalhar comigo diretor de fotografia (Bruno Zotto), produtoras, maquiadoras (Raquel Deliberali, Ana Paula Cardoso, Milena Buzzetti, Michele Franco). Produzir uma fotonovela para mim, hoje, é como fazer um filme. A mesma estrutura. Dessa forma fica muito mais convincente e bonito. Com o tempo afinamos nosso ideal estético pela iluminação noir. Criamos um visual ideal para as fotonovelas. Já trabalhei com os fotógrafos Pedro Nossol, Iaskara Florenzano, Ivana Podolan e Japa Biet. E adoro o trabalho de todos eles!
Depois disso tudo ainda tem a edição da fotonovela em forma de animação, no caso para o site, e em formato de papel, para a Lama. E isso é um trabalho minucioso, de escolhas de trilhas sonoras, texturas, efeitos. Escolha da estética, balões, fontes. Na animação, preciso me esmerar na condução das sequências; na versão impressa preciso me preocupar também com a resolução e a legibilidade da história.
Procuro fazer outro tipo de fotonovela, sem meramente repetir a fórmula do passado. Animação em flash é um formato totalmente atual e proporciona inúmeras opções. Mesmo as fotonovelas da Lama impressa foram concebidas em outra ótica, no formato das “graphic novels”.
Mas apesar disso sou um adorador do formato de fotonovela vintage. Coleciono várias e consigo reconhecer o cheiro de mofo delas a muitos quilômetros de distância. Hehe.
Tem um conto do Dalton Trevisan e outro do Valêncio Xavier na Lama #2. São presenças ilustres. Como eles se tornaram colaboradores?
Fabiano Vianna: Na verdade minha aproximação com o vampiro Dalton Trevisan foi uma verdadeira novela mexicana. Por acaso descobri que meu amigo que trabalha numa livraria do Centro, o Ted, conhece ele. O vampiro não fala com qualquer atendente, apenas os que inspiram confiança e sabem bastante sobre literatura. Então ele aparece, frequentemente de dia e sai antes de o sol se pôr. Anda até a Praça Osório e depois volta para seu castelo no Alto da XV. Existe um limite territorial.
Cheguei a suspeitar até que o Ted pudesse ser esquizofrênico. De repente imaginava o vampiro, ou achava que qualquer senhor era o Dalton. Vai saber. Também suspeitei que eu fosse esquizofrênico e imaginasse o Ted. Hahah
No começo custei a acreditar que fosse verdade. Aliás, até agora ainda desconfio. Hehe. Bem, o fato foi que um dia deixei uma LAMA 1 para ele entregar. Junto, uma cartinha escrita à mão, bem ríspida, em que eu disse que gostaria de um conto dele na edição 2 (O vampiro odeia puxa-saquismo e firulas). Uma semana depois, o Ted me contou que ele adorou a revista e aceitou na hora. Falou “Muito bonita a revista!” “Pode dizer pro guri que permito publicar qualquer conto dos meus livros. Só não posso dar conto inédito, porque estou preparando dois livros novos”.
O conto que eu e meus comparsas editoriais escolhemos foi o “Escroto e Bandalho”, do livro “O Maníaco do Olho Verde”, publicado pela Record em 2008. Era o conto que mais combinava com o caráter pulp da revista, por se passar quase todo numa delegacia bem fuleira curitibana.
Solicitei que o Foca, grande ilustrador curitibano fizesse a arte do conto do Dalton. Foca seria o único que poderia, a meu ver, representar tão bem, quanto o Poty nos livros do Dalton no passado. E aí no final das contas o Foca se empolgou tanto que ao invés de fazer apenas um desenho, ilustrou praticamente o conto todo. Todas ilustrações fantásticas! E minha irmã, Flávia Terezinha Vianna, que é a designer da revista, fez um trabalho também primoroso com estas imagens criando uma diagramação incrível que ficará gravada eternamente em minha memória.
O conto do Valêncio conseguimos com a sua filha Ana Niculitcheff, que é minha superamiga. Ela encontrou um conto inédito e que segundo ela tinha a cara da LAMA. O conto se chama “A Morte Lucrativa”, e nunca havia sido publicado. Como os contos do Valêncio sempre foram acompanhados de ilustrações geniais, eu resolvi enviar para que o talentosíssimo André Ducci, artista curitibano, o fizesse. E realmente ficou demais!
Tive assim o prazer de publicar dois entre meus maiores mestres. O vampiro e o Frankenstein curitibanos!
O que você vê para o futuro da Lama?
Fabiano Vianna: Atualmente, em paralelo à Lama, trabalho num projeto de fotonovela eletrônica interativa (Uma história em que o leitor poderá vasculhar detalhes, arrastar objetos e escolher ângulos e trilhas que lhe agradem para assistir a história) e num romance-fotonovela-livro.
Eu considero que este é o futuro das produções. Acho que a literatura, o cinema e as artes plásticas estão mais interligadas do que nunca. A tal convergência das mídias. Porém, escritores do passado, como o próprio Valêncio Xavier, já sabiam disso e escreviam se utilizando também de imagens.
Eu acho que por trás de toda esta parafernália tecnológica estará sempre a boa literatura, e a boa literatura é feita de linguagem. Portanto, o design, a fotografia e o cinema são também formados pela linguagem.
Eu acho que a palavra LAMA será um símbolo, puro significante, das pessoas envolvidas. A LAMA será uma colcha costurada pelos escritores, ilustradores, fotógrafos e cineastas que colaboraram. Mérito de todos. Que forma ela conceberá? Só o tempo poderá dizer!
“Um homem se propõe a tarefa de desenhar o mundo. Ao longo dos anos, povoa um espaço com imagens de províncias, de reinos, de montanhas, de baías, de naus, de ilhas, de peixes, de moradas, de instrumentos, de astros, de cavalos e de pessoas. Pouco antes de morrer, descobre que esse paciente labirinto de linhas traça a imagem de seu rosto”.
O fazedor, Jorge Luis Borges
E uma pergunta extra: quem você gostaria que fosse transformado em
caveira para estampar uma camiseta da Crânio?
Fabiano Vianna: Sempre gostei da estética das caveirinhas mexicanas do Dia dos Mortos, mas se fosse escolher uma personalidade acho que ficaria incrível uma do Edgar Allan Poe, inclusive porque ele tinha um formato de crânio bem diferente, com a testa grande pacas.
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Data do Post: 16/02/12
Categoria(s): Mitologia
Tags: entrevista, Fabiano Vianna, Pulp Fiction, Revista Lama
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