Revista Lama: pulp fiction paranaense (Parte I)

Prepare-se para cair na lama. Só não se preocupe com a sujeira. Ela é, no caso, muito bem-vinda. Quanto mais fundo você for, mais pegajoso e obscuro fica o lamaçal.

Foi nesse clima que surgiu a Lama, uma revista de literatura pulp publicada em Curitiba. Horror, suspense, policial, noir, fantástico, ficção científica e fantasia são os temas que formam a Lama. A revista nasceu impressa – e já está na segunda edição neste módulo –, mas o universo dela transbordou os limites das páginas e agora se espalha em novos formatos no blog da revista.

A ideia nasceu pelas mãos de uma trupe interessada em expandir uma abordagem atual da ficção pulp, que se popularizou no início do século passado, e em criar um espaço para que escritores e ilustradores mergulhassem na lama dessa ficção.

A Crânio entrevistou Fabiano Vianna, idealizador e editor da revista, para saber mais sobre as origens da Lama e o que vem por aí para a publicação. Por enquanto, está rolando lá no blog desde o dia 8 de fevereiro a segunda rodada de contos e ilustrações. O tema é “Carnaval do Horror” e funcionou assim: ilustradores e fotógrafos criaram imagens nervosas para inspirar os escritores. É pra ligar uma marchinha fúnebre e pular (de medo) o Carnaval.

A entrevista vai ser dividida em dois posts.

 

Por que as pessoas se interessam pelo oculto, pelo obscuro? Qual é o seu interesse nisso?

Fabiano Vianna: Eu acho que isso é uma coisa intrínseca do ser humano. Gostar daquilo que não entende, conjecturar mundos e dar vida ao imaginário. Só o mundo real não basta.

Para mim, é também um exercício de linguagem. Sinto a necessidade de escrever sobre acontecimentos improváveis, ou não explicados pela mente racional. Escrever sobre acontecimentos do dia a dia ipsis litteris me soa banal. Fotografar o mundo como ele é me soa banal. Prefiro fotografar a cidade que existe dentro da cidade. Extrair dos atores, outros seres.

Prefiro me perder pela urbe labiríntica e subterrânea. A que só é acessada por portas e galerias do imaginário.

Quando era jovem, preferia o trem fantasma a qualquer outro brinquedo do parque de diversões. No fundo já era uma necessidade de adentrar ao obscuro e deparar-me com aquelas criaturas fantasmagóricas. Vontade de ser surpreendido.

Mesmo quando escrevo uma narrativa “realista”, não considero realmente real. (Estórias de detetive, por exemplo). E sim uma projeção do que vejo, ou acredito que vejo.

Desde muito novo, coleciono livros de fábulas, mitologias, gibis e revistas pulp. Quando lia Monteiro Lobato, os personagens que mais me impressionavam eram os monstros. Saci, Cuca, lobisomem, Boitatá, minotauro… Na literatura dele, eram abordados com seriedade. Manifestando medo. Não o pastiche que transformaram nas séries mais recentes para televisão.

A Lama nasceu revista impressa, honrando as raízes que pretendeu homenagear, e migrou para a internet. Por que essa mudança? Continuará sendo produzida a versão impressa?

Fabiano Vianna: Eu não queria que a Lama fosse, apenas, uma publicação impressa. Eu encaro o conceito “Lama” como algo amplo, um universo a ser explorado em diversas mídias. Lama é apenas o título deste “superconjunto” de temas pulp. Horror, suspense, policial, noir, ficção científica e fantasia.

Estes contos podem tanto estar na revista impressa como em outros formatos.

O modelo impresso não é uma coisa fácil de fazer e exige grana. Consegui, nas duas primeiras edições, reunir um grupo de patrocinadores, mas o empenho para vencer todas as etapas, e de forma ainda independente, é enorme.

O blog surgiu para suprir o vácuo que existia entre uma publicação impressa e outra. E me surpreendeu. Eu não imaginava que a “revista online” teria tanto feedback. Várias pessoas compartilhando as postagens, lendo os contos e vendo as imagens na mesma hora. Fora que estamos testando também o formato vídeo.

Estamos resgatando aos poucos também a fotonovela, fotografando pequenos editoriais dos contos. Estou trabalhando com fotógrafos fantásticos como Marco Novack, Eli Firmeza e João Castelo Branco.

Certamente ainda pretendo publicar mais edições impressas. Entretanto ainda estou pensando como estruturar melhor isso. Confesso que a revista em papel é um fetiche. Folhear, sentir o cheiro, colecionar. Ainda sinto a necessidade disso. Estamos estudando também um formato de “crowdfunding”, em que várias pessoas “patrocinaram” e se tornam parte do produto, ganhando vantagens ou pacotes de revistas para vender ou doar. Vamos ver…
O que significou para vocês reeditar uma Lodo, a revista pulp publicada pelo escritor Florestano Boaventura na década de 1950?

Fabiano Vianna: A Lodo nos inspirou a criar a Lama. Publicada desde 1948 pelo Florestano Boaventura, escritor que mora no bairro do Uberaba, em Curitiba, era uma revista em formato cordel, com histórias pulp, de horror e fantásticas. Mas por algum motivo ele parou de fazê-las na década de 1970. Muita gente nunca ouviu falar. Resolvemos então prestar uma homenagem criando a Lama. Inclusive o nome, tem a ver e até o número de letras. Daí quando ficou sabendo da Lama, Florestano entrou em contato conosco e disse que se quiséssemos poderíamos republicar algum material das Lodos antigas e nos cedeu contos e revistinhas. Propusemos a ele então de fazermos um novo design e novas ilustrações e lançar a partir do número que ele havia parado, número 127, junto com a Lama 2. E ele topou. Daí o Daniel Gonçalves ilustrou e diagramou as histórias que reeditamos nesta Lodo nº 127. O nosso parceiro Otávio Linhares também teve um papel importante neste processo, porque foi ele que primeiramente teve contato com o Florestano e passou também a escrever novas histórias para publicarmos na edição.

Para nós é uma honra total, claro. Ainda mais que eu consegui convencer o “Flores” a escrever também no blog. Ele nos entrega os contos digitados na máquina de escrever e aí eu redigito. As histórias que ele conta são incríveis.

O projeto inteiro é feito de forma colaborativa. Como é feita a seleção de artistas para participar da Lama? O que os interessados em publicar imagens, contos ou vídeos devem fazer?

Fabiano Vianna: Alguns colaboradores são fixos, porque fazem parte do projeto desde o início, como Luiz Felipe Leprevost e Daniel Gonçalves. Além disso, nós três formamos um conselho editorial para organizar a coisa. Reunimo-nos para ler os contos que os escritores enviam, bem como para analisar as ilustrações, mais tarde, das histórias selecionadas. Nossas sessões de leitura acontecem na Confeitaria das Famílias – habitat de samambaias-polvo pré-históricas e detetives de café centrais. É lá que lemos um para os outros as histórias e selecionamos o que entra na próxima edição. Sempre devidamente acompanhados de “fumegigantes” cafés e guloseimas de outrora – familiares maravilhosas.

Os artistas, eu que sou da área do design e ilustração, pesquiso. Comumente navego por sites, tumblrs e demais plataformas de arte. Coleciono ilustrações de vários artistas e me interesso muito por isso. Mesma coisa com filmes. Aí entro em contato com os ilustradores que considero do perfil e vou testando.

Procuro colocar sempre os ilustradores em contato com os escritores, encaminhando os e-mails de um para o outro. Em algumas vezes eles dialogam, de vez em quando os escritores sugerem imagens. Eu faço, como editor, o meio campo do processo. De vez em quando também sugiro mudanças, peço para que os ilustradores mandem esboços para mim antes de finalizar o trabalho.

Nesta rodada do blog (2ª) também testamos algo novo, de inverter o processo. Nesta, foram os ilustradores e fotógrafos que enviaram as imagens para inspirar os escritores.

Além disso, estou sempre aberto a receber contos e ilustrações de pessoas novas. No blog temos mais possibilidade de testar. Encaro-o como um galpão; oficina de criações macabras. Um galpão podre carcomido escondido no cerne de uma floresta pantanosa.

(A entrevista continua no post de amanhã)


Linha do tempo

Veja este post no celular pelo código acima.

Comments:

  1. [...] Na segunda parte da entrevista com Fabiano Vianna, editor da Revista Lama, um pouco sobre cultura, internet, fotonovela e as histórias do Vampiro e do Frankenstein de Curitiba, Dalton Trevisan e Valêncio Xavier, os escritores curitibanos que foram colaboradores na Lama #2. A primeira parte da entrevista pode ser lida aqui. [...]

  2. Ibitinga,24 de Fevereiro de 2012.Bom dia.Meu nome é Hermano sou portador de Distrofia.Estou enviando esta mensagem com muito Respeito,Carinho,Atenção e acima de tudo com muita Generosidade.Bom dia.Prezado,Conceituado,Respeitado,Estimado Senhor Fabiano Vianna.É com muita Alegria e Satisfação que eu Hermano estou enviando esta mensagem para o Senhor.Bom dia.Tendo em vista que eu Hermano sempre procuro me inteirar dos assuntos político-administrativos e sociais de nosso país e que muito Admiro o trabalho realizado pelo Senhor e por toda a sua equipe,pois se trata de um Conceituado órgão que não mede esforços para garantir o bem estar da população brasileira e o desenvolvimento de nosso país,eu Hermano solicito de Vossa Excelência a Gentileza de estudar a possibilidade de eu poder me cadastrar gratuitamente para que eu possa poder ter a Grande oportunidade de poder receber a Revista Lama impressa.Esperando merecer-lhe a Generosa compreensão eu Hermano despeço-me com um Grande abraço de Solidariedade.Mensagem de Hermano.Senhor Fabiano.Nós não devemos deixar que as incapacidades das pessoas nos impossibilitem de reconhecer as suas Habilidades.Amizade.É por isso que Deus te colocou na terra para alentar o caminho dos Homens sacramentando-te com o sublime nome de Amizade.Saber pedir,Saber agradecer e Saber retribuir.Certo de sua Atenção para com o assunto,eu Hermano antecipo Agradecimentos e fico no aguardo de sua manifestação.Atenciosamente Hermano um jovem que adora ler,aprender e ensinar.Abraços de Hermano.Bom dia.

    • Olá, Hermano.
      Passamos seu contato para o Fabiano, responsável pela Revista Lama.
      Ele vai falar com você.

      Obrigada pelo comentário.
      Abraço!

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