Machado se revirou no túmulo

Já falamos por aqui sobre mashups literários, essa onda pós-moderna de reviver os clássicos em coautoria, adicionando outros elementos à história original. O livro comentado na época foi o da escritora britânica Jane Austen, transformado em “Orgulho e Preconceito e Zumbis”. Agora, o trabalho ficou um pouco mais próximo. A editora brasileira Lua de Papel acaba de publicar a coleção “Clássicos Fantásticos”, em que alguns dos livros mais cultuados da língua portuguesa viraram romances de ficção científica e com muitos elementos que fariam a ironia machadiana estremecer.

Duas das quatro primeiras obras são justamente do Bruxo do Cosme Velho, um dos gênios das letras brasileiras, Machado de Assis. “O Alienista” e “Dom Casmurro” foram os primeiros adaptados a uma linguagem mais atual e um tanto mais exótica. O romântico José de Alencar teve maculado – ou atualizado, como você preferir – o seu “Senhora” e, de Bernardo Guimarães, foi escolhido o livro “Escrava Isaura”.

Os responsáveis pela façanha são autores com experiência em humor e em roteiros para TV com um objetivo claro: tornar atrativas obras que, para uma parte de jovens e adolescentes, são chatíssimas. Para mudar essa realidade, em “Escava Isaura”, escravagistas surgem como vampiros; ETs transitam em “Dom Casmurro”; mutantes circulam em “O Alienista” e bruxaria e encantamentos estão presentes no romance “Senhora”.

Em “Dom Casmurro e os discos voadores”, escrita por Lúcio Manfredi, os personagens estão disfarçados, já que na verdade são seres alienígenas e androides. É o leitor que identifica quem é quem. O ciúme de Bentinho, fio norteador da obra original, agora ganha um elemento a mais: ele desconfia que a ligação entre Capitu e Escobar não é deste mundo.

Um dos contos mais famosos de Machado de Assis virou “O Alienista Caçador de Mutantes”, escrito por Natalia Klein, que, nas palavras da editora, “soma irreverência e nonsense ao humor ácido e politicamente incorreto do escritor carioca do século 19”. A vila de Itaguaí recebe uma nave especial e é coberta por uma névoa que causa mutações alienígenas. Os casos são cuidados pelo médico Simão Bacamarte, que passa a ser chamado de alienista, palavra que uma vez significava médico especialista em doenças mentais, e que agora é uma combinação de “alien” com “especialista”.

José de Alencar criou uma forte personagem romântica e Angélica Lopes a transformou numa bruxa. “Senhora, a bruxa” coloca Aurélia como parte do plano maligno das irmãs Blair de alcançar a vida eterna. Para realizar a poção mágica que as fará viver para sempre, as bruxas precisam conseguir: 4 lágrimas de amor, 2 juras de ódio e 1 gota de sangue (obtida em ferimento feito pelo ser amado, com objeto de prata e na intenção de matar). O casal-alvo, é claro, é Aurélia e Fernando.

Já a “Escrava Isaura e o vampiro“, criada por Jovanne Nunes, traz à história da escrava branca muito sangue e vampiros. Os escravagistas que mantinham as amarras de homens não livres tornaram-se vampiros, seres bem escolhidos para representar o abuso dos personagens.

E você, leria algum dos clássicos revisitados?


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Comments:

  1. HAHAHAHA.
    Adoro esses mashups e fico imaginando como serão.
    Só acho meio falha a desculpa de "atrair os jovens para os clássicos". Humor e entretenimento é uma coisa, homenagem e valorização do clássico é outra.
    xD

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