Esqueleto de Pano

Agradecemos à galera do Alt pelo belo texto que tornou nossas idéias mais claras, até para nós mesmos.

Crânio na Gazeta

Publicado originalmente no Caderno Alt da Gazeta do Paraná, ed 68 em 07 de Junho de 2009. Versão em PDF

Esqueleto de Pano

Julliane Brita e Oniodi Gregolin
CASCAVEL | PR

VENDE-SE POSTURA!

Aqueles corpos que pairam dentro delas nada mais levam do que as matizes que elas transcendem. Penduradas em um varal, podem ser apenas tecidos, coloridos ou não, a balançar no mesmo ritmo que o vento. Caso se desprendam da humilde corda que as suporta, voam ou caem. E antes mesmo de estarem ali penduradas já faziam turbilhão na máquina que as lavava. Correnteza. Marola. No ar, são bandeiras. Aquelas que trazem traços mais simples passam despercebidas pelo vento. Aquelas que de tamanho já dizem aqui estou, melhoram ainda mais a presença quando trazem estampa ou cor. E de cor variam pouco, pois a combinação de tons pode até fi ndar, mas de estampas não se limitam a nada, com elas não há determinante que possa dar um limiar. E se provocam sentidos, e se criam situações, assim vai de cada vestido, pois elas sozinhas não são.

Há quem pense ainda que roupa é coisa simples e enfim. Mas se engana pensar, roupa não serve apenas para cobrir a nudez. E nem sempre os cabides à venda mostram o que se procura de fato. É necessário rodar ruas para encontrar o que lhe cabe ao tato. Se vestiu bem, já é um ponto positivo; o próximo passo é aquele olhar que diz certamente se será altivo. Quando nada pode trazer essa congruência, não há saída, deve-se apenas buscar algo que lhe caiba a decência.

Roupa não é só vestimenta, é estilo, caráter. Vendem-se camisetas, calças, blusas; vende-se postura. Não digo que quem veste minissaia transfere seu caráter, mas cada qual tem tipo para o que usa. Nos recônditos caminhos deste Oeste intransferível, há quem pense desse modo. Roupa não é apenas vestimenta. Em busca destes notáveis, o designer Rafael Spoladore saltou à lembrança. Pensando roupa como uma manifestação das ideias de quem as usa, o designer produz em parceria com outros colegas camisetas tão insignes quanto a iniciativa. “Uma camiseta não é apenas uma peça de roupa, é uma postura. E qual é a postura de alguém vestindo a Evil Mouth num almoço de família? Na igreja?”. As camisetas levam consigo uma marca que só pode ser vestida se houver afi nidade. Afinidades que transmitem o que realmente se pensa. Spoladore não vende apenas uma camiseta, vende uma identidade. Subimos ao oitavo andar do prédio em que reside. Da sala ao pequeno escritório/quarto, conhecemos um pouco da história da Crânio. Não é um ateliê de costura.

Na virtualidade do ensejo

Ele sempre fez camiseta. Isto é, desde antes dos cinco anos de existência da Crânio, ele já fazia camiseta e tudo que isso possa significar. Desde dezembro do ano passado, entretanto, é que o negócio ficou sério, que ele abriu empresa e que resolveu fazer isso para viver, sustentar vícios e virtudes, como todo santo brasileiro. A ideia original não era fazer camiseta por ser algo de vestir, mas viver de desenho, porque, segundo ele, desenhista passa fome. Viver dos desenhos impressos nas camisetas que viram suporte, moeda de troca e meio de subsistência.

Com Spoladore, estão o multimídia Sassá, ilustrador, cartunista e integrante da banda Trilöbit; os designers gráficos Gregório Romero, Diogo e Nando, do Estúdio Deveras; e Bernardo Faria, da BRtipo Design. Essa equipe, que por vezes conta com alguns adendos (na verdade, 12 pessoas, entre colaboradores e investidores, estão no grupo), é a responsável tanto pela feitura das ilustrações quanto pela escolha de quais estamparão as camisetas da marca. Um em cada ponto – dentre os lugares, Cascavel, Londrina, São Paulo… – é responsável por um pedaço da marca, que se faz presença corpórea na virtualidade da rede. “Há várias marcas vendendo camiseta na Internet. Tem a Camiseteria (camiseteria.com), que tem uma linha mais leve, um público de adolescente até uns 24 anos, mais ou menos, e havia o espaço para uma linha assim, com um público-alvo com mais de 25, e nós pegamos esse nicho… mas nada como a T-shirt Hell (tshirthell.com)”. A “linha assim” a qual se refere Spoladore envolve caveiras – o nome da marca não é à toa – e uma boa pitada de sarcasmo; nada tão leve como as ilustrações socialmente responsáveis da Camiseteria nem tão pesado quanto a amoralidade descarada da T-shirt Hell.

Apesar de a rede ser a sede da Crânio e de boa parte dela estar espalhada pelo apartamento de Spoladore, tudo é terceirizado: na Mega Hammer, é feita a serigrafia; a malha das peças vem de Santa Catarina; os compradores estão em várias cidades do Paraná, nos estados do Mato Grosso, São Paulo, Santa Catariana; os ilustradores podem ser de qualquer canto do globo. Até mesmo midiaticamente, a Crânio é disseminada. O ALT, inclusive, não é a primeira publicação a mencionar a marca assentada em Cascavel. A edição 291, ano 28, número 6, de junho de 2009, da revista nacional VIP, trouxe na seção “As melhores camisetas do mundo” a foto da peça chamada Evil Mouth (em tradução livre, “boca maldita”), enviada pelo publicitário de Toledo Rodrigo Gonzatto.

A menção na revista de circulação nacional rendeu três vendas diretas para estados diferentes, mas, talvez, possa mesmo é animar os lojistas cascavelenses. “Pra vender aqui em Cascavel, tem que ser marca de São Paulo. A primeira coisa que eles perguntam aqui é ‘de que marca é?’; quando escutam o nome, dizem que nunca ouviram falar. Não importa se o produto é de qualidade, eles querem um nome”. Por essa razão, Spoladore visa o mercado fora daqui (há contatos com a Galeria do Rock, em São Paulo, há vendas em uma loja de Florianópolis e um investidor da Inglaterra com interesse na exportação para a Europa) e as vendas, via web, visam o consumidor final. Não por birra, mas algumas experiências já foram frustradas. “Teve gente que deixou duas semanas as camisetas pra vender e pediu pra eu ir buscar que não tinha vendido nada. Outro fato curioso é que tive dois fornecedores, uma facção e uma estamparia, que não quiseram mais trabalhar para a Crânio, pois os desenhos seriam muito ‘demoníacos’. Os dois eram da mesma igreja”.

Para divulgar os produtos únicos – os desenhos são feitos especialmente para as camisetas –, a Crânio aposta no boca a boca (que é mais virtual do que ao vivo, como o restante da produção). O movimento sutil na rede, com investidas no microblogue Twitter e no blog da marca (craniocamisetas.com), que em 30 dias estará finalizado em um modelo mais completo, são as únicas ferramentas do momento. “Para trabalhar com o Twitter, você tem que gastar tempo com ele. A gente tá pensando em fazer alguma ação, só que ainda não achamos uma razão, é tudo muito vago”. O e-commerce é o foco do momento, mas o cronograma de ações ainda prevê a loja da fábrica, é claro. “Assim que eu puder alugar uma salinha, eu vou montar meu escritório, trazer alguém pra cuidar do marketing e dessa parte do comércio virtual”.

Enquanto isso não acontece, a dedicação é total. “Eu me dedico a isso o tempo todo, é integral mesmo. Às vezes eu acordo de madrugada com uma ideia e vou desenhar, escrever, pesquisar…”. Algumas das ilustrações são de Spoladore, algumas são encomendadas (como a da Amy Winehouse, de Sassá, que ilustra a capa do ALT e logo estará à venda), outras vêm pela vontade do ilustrador, que também escolhe a cor da camiseta. No momento, faltam aquelas de que os roqueiros de plantão mais gostam, as pretas. “Eu tentei fugir um pouco do preto, usar mais as cores. Aí, fugi tanto que acabei me esquecendo dele. Mas vamos fazer uma linha monocromática, que deve sair logo”. Outros testes também estão sendo feitos, com o uso de pó fosforescente, por exemplo; a serigrafia oferece possibilidades. “O lance da serigrafia é bacana porque a qualidade é maior do que a da estampa; dura muito mais, não racha…”. Aos ilustradores que ficaram interessados em ter o desenho estampando o peito de alguém de atitude, a Crânio aceita fazer a avaliação; afinal, o negócio é dar visibilidade a desenhistas e à arte a que se propõem.

“Sabe de uma coisa, o porquê da Crânio? É porque a gente gosta de desenhar caveira mesmo. É um trabalho em que a gente se diverte. Isso vem muito do rock também. A galera que compra Crânio cresceu ouvindo rock dos anos 80, é advogado, arquiteto, que usa terno a semana inteira e, no fim de semana, num churrasco com os amigos, gosta de usar uma camiseta bacana, passar uma mensagem. Até agora só coloquei dinheiro, mas é muito bom trabalhar com desenho, e ver que uma empresa pode funcionar com um em cada lugar…  Ainda não tenho retorno, mas vou ter, eu acredito, a gente tem que acreditar. Tá bravo, mas tá muito legal. O que a gente quer é transformar camiseta em arte”.


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Data do Post: 27/08/09
Categoria(s): Crânios na Mídia, Toca do Caveira
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Comments:

  1. [...] do Sassá, estupefato ao ver que a capa do caderno Alt ficou completamente tomada com seu desenho da Amy Winehouse [...]

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