Caveira entrevista: O Rei Lagarto

Antes de começar mais um Caveira Entrevista, uma ressalva feita pelo próprio entrevistador: as perguntas e respostas a seguir podem ter efeitos colaterais.

Dentre os mais leves, estão sonolência e uma leve saudade de quando você achava que a única faceta relevante de Jim Morrison era ser vocalista do Doors. Esses sintomas, aliás, só afligem pessoas que têm pouco ou nenhum conhecimento sobre o cantor autodenominado Rei Lagarto. Para fãs inveterados e groupies que, a essa altura do texto, já estão me odiando, os efeitos são outros: aumento do amor platônico, construção de um altar para Morrison e a junção em grupos religiosos místicos e tântricos a respeito do tema.

Agora sim, é hora de celebrar o Rei Lagarto.

Caveira - Para começar essa conversa, eu queria saber quem vai me responder: o Rei Lagarto, Mr. Mojo Risin, Jimbo ou Jim Morrison?

Jim Morrison - Antes eu tinha um pequeno jogo, gostava de rastejar no meu cérebro. Penso que você sabe a que me refiro. É um jogo chamado Enlouquecer. Você devia tentar este jogo agora. Apenas feche os olhos e esqueça seu nome, esqueça seu mundo, esqueça as pessoas. Quem vai lhe responder é a poesia. Só não esqueça: a verdadeira poesia não diz nada, apenas destaca as possibilidades. Abre todas as portas.

Caveira - Hmm… Certo… E essa coisa toda com lagarto, vem de onde?

Jim Morrison - Tive um livro sobre cobras e répteis que se iniciava com a seguinte sentença: “Répteis são descendentes interessantes de magníficos ancestrais”. Se todos os répteis desaparecessem amanhã, isso não abalaria em nada o equilíbrio ecológico. Penso que eles poderão resistir a outra guerra mundial ou a um envenenamento total do planeta. Os répteis encontrarão um caminho para isso. Não podemos esquecer que os répteis são associados ao inconsciente e às forças do mal. Mas não estou afirmando nada seriamente, cada um vê do jeito que quiser.

Caveira - Dizem que quando você foi encontrado morto estava sorrindo. Acha que a morte é um pouso doce para um poeta e para um solitário ou só não sabia do que se tratava o momento e estava relaxando na banheira?

Jim Morrison - Eu costumava dizer que não me importaria de morrer num avião. Eu também não queria morrer dormindo ou por idade ou por overdose. Eu queria sentir como seria o momento. Saborear, ouvir, sentir o cheiro disso. A morte só ia acontecer uma vez e eu não queria perdê-la. E não perdi.

Caveira - Vocalista e letrista do The Doors foram só duas de suas funções, já que você também se dedicou ao cinema e à poesia. Como escritor, você acha que está mais para um beat, como Kerouc, ou mais para um maldito, como Baudelaire e suas flores do mal?

Jim Morrison - Há pouco mistério em escolher um ou outro. Gosto da liberdade de Kerouc e muito mais das trevas de Baudelaire, mas eu apelo aos deuses das trevas ocultas de sangue. Eu prometi que iria me afogar em vinho místico aquecido. Vamos, então, reinventar os deuses, todos os mitos das idades. Já ouviu falar de Dionísio?

Caveira - Quando você morreu, estava sendo processado por masturbação e felação pública. Quase 40 anos depois, seus fãs fizeram uma petição e a Flórida concedeu um perdão póstumo. Isso significou alguma coisa pra você ou, como é de se esperar, não mudou nada?

Jim Morrison - Na época, tentei provar que esta profanação não feriu os parâmetros de comportamento dos padrões de Miami. Mas eles ignoraram. Certamente, era o meu estilo de vida que eles queriam atacar. Pra mim, não faz mais diferença. Afinal, felação até que era uma ótima palavra…

Caveira - Você disse que não queria ser cantor e que o Doors aconteceu simplesmente. Como foi essa experiência cujo resultado foi uma legião de seguidores, um reconhecimento quase místico e sua ascensão a líder?

Jim Morrison - Entre as coisas conhecidas e as coisas desconhecidas, existem as portas. Espero que isso responda a sua pergunta.

Caveira - Você tinha medo de morrer, ou melhor, você tem medo de voltar?

Jim Morrison - Penso que as pessoas resistem à liberdade, pois têm medo do desconhecido. Mas aí está a grande ironia… o desconhecido já foi certa vez bem conhecido. Nossas mentes já o detiveram. A única solução é confrontá-las. Confronte-se você mesmo com o grande medo imaginário. Depois disso, o medo não terá mais poder e o temor à liberdade se desvanecerá por completo. Caveira, você dormiu?


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Data do Post: 25/11/11
Categoria(s): Toca do Caveira
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