Caveira Entrevista: Kurt Cobain

Ele disse uma vez que era um punk influenciado pelas máquinas. Só que a máquina o consumiu. E o triste, sensível, insatisfeito, pisciano, pequeno homem de Jesus juntou-se aos outros que, aos 27 anos, cumpriram o curso de uma maldição.

Ele disse que amou demais e odiou demais, mais que do que seria possível aguentar. Para ele, se você morre, você fica completamente feliz e em algum lugar sua alma permanece. Ele não tinha medo de morrer. E se eternizou como era esperado que acontecesse.

Ele não tinha mais paixão quando partiu, mas o Caveira deu um motivo muito maior para que ele voltasse. A todos, os votos de Kurt: paz, amor, empatia.

Crânio - Não me leve a mal, mas queria perguntar uma coisa antes de tudo. Você resolveu, digamos assim, facilitar o trabalho da Morte porque achava que não iria fazer parte do grupo dos 27 anos ou a história é outra?

Kurt Cobain - É engraçado você perguntar isso. Depois de algum tempo pensando, achei que poderiam chegar a essa conclusão. Mas vou te contar um segredo: foi ela que mandou. Eu só obedeci… Afinal, quem disse que eu me matei?

Crânio - Então os fãs não precisam ficar decepcionados? Eles pensaram que, de certa forma, você tinha desistido de tudo…

Kurt Cobain - Eu sempre saí de empregos sem dizer ao chefe que eu estava saindo; eu simplesmente não aparecia um dia. Foi a mesma coisa no ensino médio. Eu saí faltando apenas dois meses para acabar. Eu sempre desisti das coisas. Dessa vez, eu não desistiria se não houvesse um motivo muito importante… Não é só que eu não aguentava mais tudo aqui, entende? É algo transcendental.

Crânio - Você comentou, em uma visita ao Brasil, que ouviu Arnaldo Baptista e que gostou da coragem d’Os Mutantes. Qual música deles é sua preferida?

Kurt Cobain - Tem duas músicas que fizeram bastante sentido pra mim na época. Acho que o nome de uma delas era “Tudo explodindo” e dizia: “Cansei das mentiras que tenho que ouvir, dos velhos palhaços fantasiados. É duro viver num mundo em que a falsidade está por trás de tudo”. A outra era a que dizia: “I’m sorry, baby, I won’t be with you today, this is my last time on Earth”…

Crânio - Mesmo antes de você sair do Nirvana, a banda já estava a um passo do fim. Depois de vocês, vários tentaram ocupar o lugar da banda. Desse término, saiu até o Foo Fighters… Acha que o fim do Nirvana se virou contra o rock?

Kurt Cobain - Nós fomos incapazes de mostrar o lado mais suave, mais dinâmico da banda. O som pesado de guitarra é o que a garotada quer ouvir. Gostávamos de tocar, mas até quando eu seria capaz de gritar até arrebentar meus pulmões toda noite? Nós havíamos esgotado nossas possibilidades até o ponto em que começamos a nos repetir. Não nos viramos contra o rock, mas quem ouvia rock se virou contra o que queríamos fazer e não conseguíamos mais. Sobre o Foo Fighters, deixem os caras em paz. O Dave se deu muito melhor sem mim.

Crânio - Seu romance com Courtney Love sempre foi controverso. Você foi até acusado de bater nela. Hoje em dia, ela é mais controversa do que qualquer episódio do relacionamento de vocês. O que foi essa relação?

Kurt Cobain - Courtney e eu brigávamos, discutíamos bastante, mas nós não tínhamos nenhum problema. Eu tinha uma esposa que era uma deusa, que transpirava ambição e empatia, não havia do que reclamar. Tem coisas aí que comentam sobre ela… Eu não sei, entende? Mas eu sempre achei que Courtney era mais uma ameaça do que eu era. E eu estava certo, não?

Crânio - Antes de encerrar o Nirvana, você já estava procurando novos parceiros com quem renovar seu som, que estava estagnado para você. Quem, hoje, poderia ser um bom parceiro musical? Talvez alguém que estivesse mais antenado com as causas, como o sexismo, da música que você queria…

Kurt Cobain - Desde aquela época eu já gostaria de trabalhar com pessoas que fossem o oposto total do que eu estava fazendo. O grunge é um termo tão forte quando o new wave, e você não consegue escapar dele, mas, da mesma forma que o termo, a tendência é que ele saísse de moda. E saiu. Agora, acho que eu continuaria chocando as pessoas. Alguém que fosse totalmente diferente do que eu fazia e defendesse as mesmas causas? Acho que eu tocaria com a Lady Gaga… Que tal?

Crânio - Afinal, qual é o cheiro de um espírito adolescente?

Kurt Cobain - Os melhores deles cheiram a aventura e coragem, mas alguns são mais sensíveis… Alguns, amam demais todas as pessoas e não conseguem aguentar… Que cheiro seria esse, eu me pergunto…

Crânio - Você não acha que eles fedem então?

Kurt Cobain - É. Eles fedem na maioria do tempo.


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Data do Post: 25/11/11
Categoria(s): Toca do Caveira
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