Caveira entrevista: Janis Joplin

Ela foi uma garota estranha do Texas, um símbolo, como já disseram, de toda a criança perdedora da América dos anos 1960: quando era criança, foi eleita o menino mais feio do colégio. E eu não errei no gênero das palavras dessa frase.

Se isso a derrubou como faria com qualquer alma simplista, não podemos afirmar, mas há algo que não se nega. Ela era livre. Para sofrer e para dizer em melodias, voz rasgada e blues o que as mocinhas que não se atreviam nas lamas dos festivais não mencionariam em conversas comportadas.

A liberdade dela ultrapassava a barreira dos incontáveis parceiros sexuais ou do mergulho nu que a fez ser expulsa do Copacabana Palace, quando estava no Brasil. Do topless que a fez ser presa em plena ditadura brasileira. Ela era livre para se expressar. Para não segurar o rosto em contorções de alma ao cantar o que lhe vinha de dentro. Para despentear os cabelos e vestir as cores tantas que talvez ela não tivesse no espírito.

Só que ela era livre, livre o suficiente para se deixar levar.

Janis no Brasil. Fotos de Ricky Ferreira.

***

O Caveira manda confessar que ficou encabulado com esta entrevista. Afinal, ela é a primeira dama da Maldição e deveria ceder ao capricho dos malditos da Crânio e virar caveira para que a maldição fosse revogada.

Ela aceitou, mas não quer dizer que o Caveira não tremou os ossos ao perguntar, muito respeitosamente, se querem saber.

Para ler ouvindo:

Caveira - Você me desculpe começar a entrevista falando de outra pessoa, mas é que, aqui no Brasil, falar de você é também mencionar Serguei. Você se lembra dele?

Janis Joplin - Sabe que você não é a primeira pessoa que me pergunta dele? Depois de uma longa digressão ajudada por uns goles de vodka, me lembrei de um cara com a boca engraçada, disseram que era ele. Uma simpatia, não era?  Ele ficou bastante interessado em Niehaus, que foi comigo ao Brasil. Mas, sabe de uma coisa? O que eu realmente me lembro daquela selva? Tina Turner sempre foi minha cantora predileta, mas quando vi Alcione cantando “Upa, neguinho” num cabaré de putas e marinheiros, meu coração balançou.

Caveira - Serguei gosta bastante dessa história. Ele também conta que você, na verdade, não morreu de overdose, mas foi assassinada pela CIA porque exercia um grande poder sobre a juventude americana. O que você tem a dizer sobre isso?

Janis Joplin - Eu fui uma vítima de mim mesma. Houve um tempo em que eu queria saber de tudo… Isso costumava me deixar muito triste, esse sentimento. Eu simplesmente não sabia o que fazer com isso. Mas depois eu aprendi a fazer aquele sentimento funcionar para mim. Eu era repleta de emoção e conseguia liberá-la no palco. E sobre o que era aquela geração senão sentimento? Se eu os ensinei com a música a lidar com isso, podia incomodar alguém, certo? Mas é só uma possibilidade. Afinal, eu não lembro muito bem o que aconteceu naquele dia…

Caveira - Você era diferente das mulheres da sua época. Talvez, por sentir demais, por ser livre demais. Por que acha que foi chamada aos 27, a primeira mulher da lista da Morte?

Janis Joplin - Oh, man! Essa coisa de 27 de novo? Olha, quando Jimi transcendeu eu pensei: É isso, esse lugar não serve pra gente, que tem o coração na boca e nas mãos, mas eu tinha muita vontade de ficar por aqui mesmo e, quando eu perdesse esse efeito arrebatador da música, gostaria de fazer pão orgânico e de ter bebês, era só isso. Só que só uns dias depois, ela veio e sussurrou: “Seus pães vão ficar para depois”. No começo, gritei um gordo FUCK YOU para ela, mas fui. Eu era livre o bastante para ir.

Caveira - Dizem que, depois de você, não houve cantora tão visceral. De onde veio aquela voz, aquele jeito de se expressar que ninguém ousaria antes de você?

Janis Joplin - Me parecia muito natural cantar do jeito que eu cantava, mas não é realmente feminino entrar na música, na essência dela, e não ficar na superfície da melodia, não é? Eu acho que o que era diferente em mim é que eu me permitia entrar no movimento do ritmo, em vez de olhar de longe. Cantar é sobre sentimentos. Não necessariamente felicidade ou tristeza, mas sobre todas as coisas que estão dentro de você e você esconde porque não poderiam fazer parte de conversas educadas. Que outra cantora se sentia livre para fazer isso?

Caveira - Já ouvi algo de sua opinião sobre os críticos de música. Poderia nos dizer qual é?

Janis Joplin - Não é que eu não goste deles, só acho que às vezes vão longe demais. Essas pessoas gastam páginas e mais páginas comparando minha música à influência tal e um pouco da outra e da outra quando eu só fui lá e fiz a música, entende? E pra quê? A única coisa que me faz cantar é porque fecho os olhos e ponho para fora o que tem dentro de mim. O que eu vejo é que eles gastam mais tempo falando deles mesmos e deixam de sentir a música.

Caveira - Gostaria que você desse um conselho ao que restou da sua geração, e aos novos, que só podem apreciar sua voz rasgada pela internet.

Janis Joplin - Se você ler os jornais, vai ver que todos estão brigando. Se olhar ao redor, vai perceber que não tem com quem contar, nem mesmo com seu irmão. Então, se chegar alguém e ele te der algum amor e afeto, eu diria para que eles aproveitassem a chance. Honey, get it while you can.

Caveira - Eu gostaria só de pedir licença para… é como eu disse sobre a condição de voltar… Você permite que a transformemos em caveira para que a maldição seja revogada?

Janis Joplin - Liberdade é só outra palavra para ‘nada a perder’. Não aceite nada, eu disse nada, se não for livre. Mas, honey, se você puder pagar pelas passagens aéreas, então você pode me seguir pelo resto da vida, ou morte, como você preferir chamar, e fazer o que quiser.

Hey, Caveira, você consegue me arrumar uma garrafa de Southern Comfort? Eu realmente sinto falta daquela merda.


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Data do Post: 29/11/11
Categoria(s): Toca do Caveira
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Comments:

  1. [...] dar boas-vindas calorosas ao responsável por trazer com muito respeito a nossa mais do que querida Janis Joplin: Jeremy Packer, o mais novo esfolador maldito da [...]

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